26092020Sáb
AtualizadoSex, 25 Set 2020 4pm

Conheça o Podcast Onconews no Spotfy

Doença periodontal e precursores do câncer colorretal

daniel cohen 2019 bxEstudo publicado na Cancer Prevention Research, periódico da American Association for Cancer Research (AACR), sugere associação entre doença periodontal e pólipos serrilhados e adenomas convencionais, dois precursores do câncer colorretal. Quem discute os resultados é o estomatologista Daniel Cohen (foto), pesquisador do Instituto Nacional do Câncer (INCA).

Pesquisas anteriores exploraram associações entre doença periodontal e vários tipos de câncer, incluindo mama, cabeça e pescoço e câncer de pâncreas, mas as evidências para o câncer colorretal são inconsistentes e faltam estudos longitudinais que examinam suas lesões precursoras.

Neste estudo, os pesquisadores examinaram dois tipos de neoplasias colorretais: pólipos serrilhados e adenomas convencionais, os quais frequentemente se desenvolvem em câncer colorretal. “Os pólipos serrilhados são frequentemente caracterizados por mutações no gene BRAF e instabilidade de microssatélites, enquanto os adenomas são caracterizados por mutações no gene KRAS e instabilidade cromossômica”, explica Chun-Han Lo, pesquisador de pós-doutorado na Unidade de Epidemiologia Clínica e Translacional e Divisão de Gastroenterologia do Hospital Geral de Massachusetts e Harvard Medical School e coautor do trabalho.

Os pesquisadores coletaram dados sobre doença periodontal e perda de dentes do Nurses’ Health Study (1992–2002) e Health Professionals Follow-up Study  (1992–2010). Os participantes do estudo relataram se já haviam sido diagnosticados com pólipos colorretais ou adenomas, diagnóstico confirmado por registros médicos.

Ao todo, o estudo registrou 42.486 pessoas (17.904 mulheres e 24.582 homens) e utilizou dados de 84.714 endoscopias-pessoa. No geral, aqueles que tiveram doença periodontal tiveram um risco 17% maior (OR 1,17 95% CI, 1,06-1,29) de desenvolver pólipos serrilhados e um risco 11% maior (OR 1,11, 95% CI, 1,02-1,19) de desenvolver adenomas convencionais. Aqueles que perderam quatro ou mais dentes tiveram um risco 20% maior de desenvolver pólipos serrilhados.

Comparados aos participantes sem perda dentária, aqueles que perderam ≥4 dentes tiveram 20% (OR, 1,20; 95% CI, 1,03–1,39) maior risco de pólipos serrilhados (Ptrend 0,01). Entre os nunca fumantes, associações semelhantes com a doença periodontal foram observadas tanto para pólipos serrilhados (OR, 1,20; 95% CI 1,02-1,41) quanto para adenomas convencionais (OR, 1,12; 95% CI 1,00-1,26).

Os pesquisadores apontaram que a associação entre perda dentária e pequenos pólipos serrilhados e adenomas convencionais avançados não foi observada em grandes pólipos serrilhados. “Essa descoberta foi um tanto surpreendente, pois grandes pólipos serrilhados são preditores conhecidos de risco de câncer. O pequeno tamanho da amostra de grandes pólipos serrilhados pode ter limitado o poder estatístico para detectar essa associação”, observou Mingyang Song, professor assistente de epidemiologia clínica e nutrição na Harvard T.H. Chan School of Public Health e principal autor do estudo.

Embora o tabagismo seja uma causa conhecida da doença periodontal e do câncer colorretal, os autores observaram que mesmo os não fumantes com perda dentária apresentaram taxas mais altas de pólipos serrilhados e adenomas convencionais. "Já ter sido diagnosticado com doença periodontal coloca uma pessoa em risco de lesões precursoras do câncer colorretal, algumas das quais podem eventualmente levar ao câncer colorretal", disse Song. "A colonoscopia de rastreamento regular e as modificações no estilo de vida são particularmente importantes nessa população", acrescentou.

Segundo os autores, os resultados deste estudo contribuem para um crescente corpo de pesquisa sobre como o microbioma oral pode influenciar o desenvolvimento do câncer. "A cavidade oral abriga uma grande variedade de comunidades microbianas. Vários fatores, incluindo má higiene bucal, suscetibilidade genética, tabagismo, diabetes e obesidade, podem resultar em excesso de patógenos orais que podem induzir a inflamação do hospedeiro e desregulação imunológica", ressaltam.

“Os resultados deste estudo, combinados com pesquisas anteriores que ligam a doença periodontal a alguns tipos de câncer, reforçam a importância de uma boa saúde bucal para garantir um microbioma bucal saudável. Além disso, pessoas que sofreram perda dentária podem se beneficiar de medidas mais intensivas de rastreamento do câncer”, concluem.

As limitações do estudo incluem o autorrelato de perda dentária e o pequeno tamanho da amostra para grandes pólipos serrilhados. Além disso, a maioria dos entrevistados era branca, e os resultados deveriam ser confirmados em populações mais diversas.

O estudo foi financiado por subsídios do National Institutes of Health, American Institute for Cancer Research, American Cancer Society, Project P Fund for Colorectal Cancer Research, Bennett Family Fund, e Entertainment Industry Foundation through Colorectal Cancer Research Alliance.

Disbiose microbiana oral e carcinogênese 

Por Daniel Cohen

Para fazer tal associação, nós devemos pensar nas bactérias periodontopatogênicas e sua influência nestes pólipos e adenomas grastrointestinais. E realmente parece que a disbiose microbiana oral pode ter algum papel na carcinogênese gástrica (Coker et al, 2018). Tanto a doença periodontal quanto a perda de dentes parecem aumentar consideravelmente o risco de adenocarcinoma gástrico e esofágico. A doença periodontal foi associada a um risco aumentado de 43% e 52% destes adenocarcinomas, respectivamente (Lo et al, 2020).

Outro ponto importante é que a perda de dentes, por si só, pode ocorrer tanto pela doença periodontal, quanto pela doença cárie, duas das doenças mais comuns na cavidade oral, mas parece que este mesmo grupo de pesquisa sempre se atenta para este fato em seus trabalhos. 

A doença periodontal em pacientes com câncer de mama foi estudada, e não foi observada associação. O trabalho foi publicado recentemente também na mesma revista do artigo analisado (Jia et al, 2020). Outras associações de doença periodontal com câncer também vêm sendo estudadas e foi sugerida uma associação significativa entre a doença periodontal e a incidência de câncer de pulmão. A meta-análise foi publicada recentemente e investigou a associação entre doença periodontal e o risco de câncer de pulmão, apesar dos autores terem sugerido que estudos observacionais são necessários para avaliar a real influência da doença periodontal no câncer de pulmão (Wang, et al, 2020).

Permanece controversa também a teoria de que a doença periodontal possa ser considerada como um fator de risco independente para o câncer de cabeça e pescoço. Outro estudo recente (revisão sistemática com meta-análise) mostrou que a doença periodontal representa um marcador de risco independente e um fator de risco putativo para o  câncer de cabeça e pescoço. Mesmo assim, eles sugeriram que são necessários estudos prospectivos com medidas padronizadas de gravidade e extensão da doença periodontal, integrados à questão microbiológica, como mencionei inicialmente, e inclusive de suscetibilidade do hospedeiro, para realmente definir a real associação e até mesmo se o tratamento da doença periodontal pode influenciar tanto a incidência quanto o desfecho do câncer de cabeça e pescoço (Gopinath et al, 2020).

Reforço que estudos observacionais prospectivos associando a doença periodontal em detalhes, tanto com lesões potencialmente malignas quanto com neoplasias malignas, são essenciais para definir o real papel da periodontite (mais provável, pois é a doença periodontal que afeta mais gravemente os tecidos de suporte dos dentes, e não a gengivite, quadro mais leve) e do microbioma oral.

Referências:

Periodontal Disease, Tooth Loss, and Risk of Serrated Polyps and Conventional Adenomas - Chun-Han Lo, Long H. Nguyen, Kana Wu, Shuji Ogino, Andrew T. Chan, Edward L. Giovannucci and Mingyang Song - DOI: 10.1158/1940-6207.CAPR-20-0090

Coker OO, Dai Z, Nie Y, et al. Mucosal microbiome dysbiosis in gastric carcinogenesis. Gut. 2018;67(6):1024-1032. doi:10.1136/gutjnl-2017-314281

Lo CH, Kwon S, Wang L, et al. Periodontal disease, tooth loss, and risk of oesophageal and gastric adenocarcinoma: a prospective study [published online ahead of print, 2020 Jul 20]. Gut. 2020;gutjnl-2020-321949. doi:10.1136/gutjnl-2020-321949

Jia M, Wu Z, Vogtmann E, et al. The association between periodontal disease and breast cancer in a prospective cohort study [published online ahead of print, 2020 Jul 29]. Cancer Prev Res (Phila). 2020;canprevres.0018.2020. doi:10.1158/1940-6207.CAPR-20-0018

Wang J, Yang X, Zou X, Zhang Y, Wang J, Wang Y. Relationship between periodontal disease and lung cancer: A systematic review and meta-analysis [published online ahead of print, 2020 Jun 25]. J Periodontal Res. 2020;10.1111/jre.12772. doi:10.1111/jre.12772

Gopinath D, Kunnath Menon R, K Veettil S, George Botelho M, Johnson NW. Periodontal Diseases as Putative Risk Factors for Head and Neck Cancer: Systematic Review and Meta-Analysis. Cancers (Basel). 2020;12(7):E1893. Published 2020 Jul 14. doi:10.3390/cancers12071893


Publicidade
Publicidade
banner libbs2019 300x250
Publicidade
banner_janssen2016_300x250_v2.jpg
Publicidade
banner astellas 2019 300x250
Publicidade
Zodiac
Publicidade
Astrazeneca
Publicidade
300x250 ad onconews200519