Qual é o impacto dos tratamentos de câncer de pulmão metastático nos custos reais e na sobrevida na prática privada no Brasil? Estudo de Riad Younes (na foto, à direita) e colegas publicado no JCO Global Oncology mostra que a terapia-alvo resultou em aumento de 62% na sobrevida, com alta de 2,45 no custo total médio, enquanto a imunoterapia teve vantagem de 48% na sobrevida, com aumento de 2,9 vezes no custo total médio do tratamento. A sequência de imunoterapia e terapia-alvo levou ao maior custo total na coorte avaliada, sem benefício de sobrevida, analisam os autores. O cirurgião torácico Rodrigo Sardenberg (à esquerda) é o primeiro autor do trabalho.
O câncer de pulmão de células não pequenas (CPCNP) é frequentemente diagnosticado em estágios avançados, levando a despesas de tratamento escalonadas. Neste estudo de coorte retrospectivo, o objetivo foi avaliar custos, sobrevida e qualidade do tratamento do CPCNP estágio IV em pacientes com seguro privado de saúde no Brasil atendidos de 2016 a 2021.
A base de análise considerou 819 indivíduos, com idade mediana de 64,9 anos. Em 1 ano de seguimento, os pacientes tiveram mediana de quatro admissões hospitalares, com duração mediana de internação de 6,2 dias.
Os resultados mostram que as taxas de sobrevida foram maiores para pacientes tratados com terapia-alvo (razão de risco [HR], 0,38 [IC 95%, 0,25 a 0,56]), imunoterapia (HR, 0,52 [IC 95%, 0,40 a 0,68]) ou ambos os tratamentos sequencialmente (0,41 [IC 95%, 0,25 a 0,68]). Pacientes submetidos à terapia-alvo sequencial e imunoterapia tiveram os custos totais mais altos (média, $ 172.828 USD) em comparação com pacientes tratados com imunoterapia (média, $ 138.125 USD), terapia-alvo (média, $ 117.068 USD) e apenas quimioterapia (média, $ 47.625 USD).
Como esperado, os autores descrevem que uma sobrevida mais longa foi traduzida em mais terapia de terceira linha (P < 0,001) e custos médios mais altos com internações hospitalares relacionadas ao câncer (US$ 24.554 quimio, US$ 31.835 imuno, US$ 28.228 terapias-alvo e US$ 35.494 para ambas as terapias). No entanto, os custos não aumentaram na proporção do benefício de sobrevida. Apesar da sobrevida mais longa, a análise de Younes e colegas mostra que pacientes submetidos à terapia-alvo ou imunoterapia tiveram número médio de internações hospitalares e tempo de internação semelhantes aos que foram submetidos apenas à quimioterapia.
“Maiores taxas de sobrevida e custos mais altos foram identificados em pacientes expostos a tratamentos modernos para CPCNP avançado. A avaliação dos custos reais do tratamento do câncer de pulmão e sua relação com a sobrevida em cuidados privados no Brasil pode fornecer informações para estudos futuros de custo-efetividade e impacto orçamentário de diferentes inovações terapêuticas para empresas de seguro saúde no Brasil”, analisam os autores.
Em síntese, a imunoterapia e as terapias-alvo incorreram em custos totais medianos 2,9 e 2,4 vezes maiores do que a quimioterapia, respectivamente, com benefícios de sobrevida de 48% e 62%, destacando uma lacuna entre custos e melhorias de sobrevida. Esses achados motivam discussões sobre despesas oncológicas e estratégias para tornar os tratamentos mais acessíveis. “Nossa análise mostrou que os pacientes tratados com imunoterapia com ou sem quimioterapia receberam mais linhas de tratamento sistêmico e apresentaram melhor sobrevida do que aqueles em quimioterapia (P < 0,001)”.
O câncer de pulmão de células não pequenas é o segundo tipo de câncer mais comum no mundo e a principal causa de mortalidade por câncer. No Brasil, o CPCNP tende a ser diagnosticado tardiamente, com atraso de 2 meses entre a consulta oncológica inicial e o tratamento. Avanços como imunoterapia (inibidores de checkpoint imunológico) e terapia-alvo melhoraram os resultados dos pacientes, mas aumentaram os custos, sobrecarregando os orçamentos de saúde com a duração prolongada do tratamento, toxicidade e tecnologias caras.
Além de Riad Naim Younes e Rodrigo Afonso da Silva Sardenberg, o trabalho conta com participação de Mariana Ribeiro Monteiro (Instituto Americas, São Paulo), Cinthia Leite Frizzera Borges Bognar (autora correspondente, do Instituto Americas, SP), Victor Braga Gondim Teixeira (Instituto Americas, Rio de Janeiro), Rodrigo de Carvalho Moreira (Instituto Americas, São Paulo) e Henry Sznejder (Instituto Americas, São Paulo).
A íntegra do estudo está disponível em acesso aberto.
Referência:
Rodrigo Afonso da Silva Sardenberg et al. Real-World Data on Metastatic Lung Cancer: Cost Analyses in Brazil From a Private Insurance Company's Perspective. JCO Glob Oncol 11, e2400253(2025). DOI:10.1200/GO-24-00253